O consultório da última quinta-feira – a presidente ou a presidenta? – foi mais um daqueles incontáveis casos em que as dúvidas dos falantes de português não têm uma resposta simples, preto no branco – a não ser que a resposta seja dada por quem aplica à questão uma visão estreita e dogmática do idioma. Uma visão superficial.
Se examinarmos os mecanismos da língua sob a camada de verniz que contenta quem sabe só um pouco, multiplica-se o número de questões para as quais a resposta honesta é “tanto faz”. Um “tanto faz” qualificado, claro, o exato oposto da anomia e do desleixo. A ideia é que, de posse de todas as informações e implicações relativas a cada opção, o falante escolha por si, levando em conta suas conveniências, necessidades de expressão, contexto etc.
Noventa por cento do público quer ou noventa por cento do público querem? Bom, o verbo pode concordar com o núcleo do sujeito (plural), mas também com o elemento mais próximo, “público” (singular). Aluga-se casas ou alugam-se casas? O plural é recomendado pela maioria dos gramáticos tradicionais e tem a preferência da tradição literária, mas só com má vontade se pode apontar erro em “aluga-se casas” – o “se” aqui é interpretado como índice de indeterminação do sujeito e não como pronome reflexivo, numa lógica gramatical alternativa que é igualmente válida e, aliás, dominante na linguagem oral.
Dá mais trabalho, claro, e talvez por isso ninguém goste de ouvir um “tanto faz”. Como em qualquer área da vida, tudo parece mais fácil e confortável quando acreditamos haver diante de nós apenas dois caminhos, um certo e um errado, e que basta aprender a distingui-los para ser feliz. Mocinhos e bandidos. Feios e bonitos. Direita e esquerda. Santa e puta. Lobo mau e vovozinha. Entender que o mundo não funciona assim é uma das dores e um dos prazeres de crescer.
Por Sérgio Rodrigues
Sobre Palavras, veja.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.