domingo, 5 de dezembro de 2010

Dever, querer, eis o drama

Somos governados por palavras? Será que o peso que damos a verbos como “dever” e “querer” nos define profundamente, não só como indivíduos, mas como espécie? Fiquei achando que a resposta pode ser sim ao ler estas palavras de Goethe, o grande poeta alemão, escritas em 1826 (mas parece que foi ontem):

“Os maiores tormentos, assim como a maioria das coisas a que o homem pode estar exposto, surgem de um daqueles mal-entendidos entre dever e querer. O que domina na poesia antiga é a desproporção entre dever e realizar; na moderna, entre querer e realizar. (…) O dever impõe-se ao homem: é duro aceitar a necessidade; o querer é posto pelo homem: a vontade humana é seu reino do céu… (O querer) é o deus dos novos tempos; entregues a ele, nos amedrontamos diante das contrariedades, e aqui se encontra o fundamento pelo qual nossa arte, assim como nossa mentalidade, permanecem eternamente separadas das antigas. Por meio do dever a tragédia se torna grande e forte, por meio do querer, fraca e pequena. Nesse segundo caminho desenvolveu-se o assim chamado drama.” (Tradução de Pedro Süssekind.)

Reduzir ao mínimo indispensável o alcance do dever, ampliar cada vez mais o alcance do querer. Eis o ideal de vida moderno, que o meio digital (tudo ao alcance de um clique, agora!) eleva finalmente à enésima potência – embora isso Goethe não pudesse ter previsto.

Sérgio Rodrigues
Sobre Palavras
Nossa língua escrita e falada numa abordagem irreverente

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