sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O sofá branco da minha sogra

Por Tony Bellotto

Se o início do ano simboliza mudança e renovação, aqui em casa começamos 2011 da melhor forma possível: uma tremenda reforma em nosso apartamento, que nos obrigou a uma mudança temporária para a casa da minha sogra.

Ao contrário do senso comum, que atribui às sogras a fama de chatas e invasivas, devo dizer que minha sogra, Ângela, é a exceção que confirma a flexibilidade de toda a regra: um amor de pessoa, carinhosa, solícita, agradável, amorosa e profundamente respeitosa. Chegou ao extremo de retirar-se do próprio apartamento – procurando abrigo na casa de outra filha – para que eu não me sentisse constrangido, o que me coloca na posição do genro que invade a casa e enche o saco da sogra, e não o contrário.

Aliás, que delícia o apartamento da minha sogra! Por que a grama do vizinho sempre parece melhor que a nossa? Ou melhor: por que o sofá da sogra sempre parece melhor que o nosso? Há um sofá branco na sala de minha sogra que é simplesmente irresistível. Ao deitar-me nele, e observar pela janela o suave balançar dos galhos das amendoeiras da rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema, lembro das mangueiras de minha infância em Assis, no interior de São Paulo.

Havia poucas coisas mais prazerosas do que colher mangas diretamente dos galhos mais altos e saboreá-las deitado na cama do Tarzã (com a Jane). Ou, se o galho fosse espaçoso, no próprio living room da Família Robinson.

O sofá branco da minha sogra me remete também aos beliches da casa de praia da minha avó em Santos. Os beliches (deviam ser uns quatro por quarto) se transformavam rapidamente na nave Enterprise – da série Jornada Nas Estrelas – na nau Santa Maria, da esquadra que conduziu Cristóvão Colombo à América, isso quando não eram simplesmente o palco do Shea Stadium, onde os Beatles se apresentavam, ou o teatro em que era gravado o programa Jovem Guarda, com Roberto, Erasmo e Wanderléa. Dependia, digamos assim, do meu feeling no momento.

Às vezes aqueles beliches eram o gramado do Maracanã, onde Pelé fazia seu milésimo gol, ou só o melhor abrigo possível para um sono profundo de quem passou o dia inteiro na praia e ainda sente o sol nos ombros, o mar nos ouvidos e o sal na alma.

O meu feeling hoje transforma o sofá da minha sogra numa espécie de tapete voador proustiano, em busca das mangas, das Américas e dos gols perdidos. E que não me leiam os engenheiros e pedreiros da reforma do nosso apartamento (nem minha mulher, que é quem organiza tudo e dá as cartas por aqui), mas estou torcendo para a reforma atrasar bastante – e pela minha experiência sei que obras SEMPRE atrasam mais que bastante.

Ótimo. Não estou ainda preparado para abandonar o sofá branco da minha sogra.

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