
Por Tony Bellotto
O telefone tocou por volta das 20 horas de 13 de maio de 1984. O toque insistente rompeu o silêncio do apartamento no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Os dias de maio, em que o céu parece mais azul e mais profundo, terminam quase sempre em noites silenciosas naquele edifício antigo. O casal de velhos sem filhos olhou surpreso para o telefone. Apesar do horário, ainda cedo, não era comum o telefone tocar à noite. A mulher atendeu e avisou ao marido que “um homem” queria falar com ele. O senhor de 80 anos permaneceu em silêncio por alguns minutos escutando o interlocutor. Quando desligou, a mulher perguntou de que se tratava, pois notara no semblante do velho companheiro – um homem normalmente tranquilo – um sutil atordoamento. “Um trote de mau gosto”, disse ele.
Algumas horas depois, sem que a mulher notasse, o velho foi até a estante e pegou o Taurus 32 escondido atrás dos tomos de uma antiga edição da Enciclopédia Britânica. A arma estava carregada, como no dia em que ele a comprara sem que a mulher soubesse, quatro anos antes. Acomodou o revólver no bolso interno do paletó, e notou que o peso da arma fazia o paletó pender para o lado esquerdo, numa assimetria que o incomodou um pouco. Certificou-se de que a mulher dormia e saiu.
Caminhou sem destino pelas ruas silenciosas da Glória. Viu um homem passeando com um cachorro e mesmo sem conhecê-lo cumprimentou-o com um movimento da cabeça. Por um momento lembrou de quando era menino, e de como os homens se cumprimentavam naquela época, movendo a cabeça e tocando o chapéu com a ponta dos dedos. Pouco antes de meia-noite, olhou para o céu e observou algumas estrelas. Tirou o Taurus do bolso e disparou contra a própria cabeça.
Especula-se que Pedro Nava, o maior memorialista brasileiro, tenha se suicidado por conta de uma chantagem sexual que sofrera por parte de um garoto de programa. Nunca se saberá com certeza as razões que levaram o escritor a disparar o gatilho naquela noite de céu limpo e temperatura agradável. Talvez o peso do passado e a força das lembranças tenham se tornado insuportáveis.
Livro….
…. a obra de Pedro Nava, que inclui títulos como Baú de Ossos, é um exemplo de boa literatura e depoimento histórico.
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