sábado, 25 de dezembro de 2010

Conto de Natal


Por Tony Bellotto

Alaor chega em casa tarde da noite. Tenta enfiar a chave na fechadura, ação que se mostra bastante complexa ou quase impossível – leve-se em conta a quantidade de pinga ingerida nas horas anteriores. Sempre que chega bêbado em casa (todas as noites na última semana), Alaor cantarola Trem Das Onze, especificamente o verso que diz “moro em Jaçanã, se eu perder esse trem…” e em seguida sorri do que considera uma coincidência fenomenal: ele realmente mora no bairro de Jaçanã, numa travessinha da rua Lopes da Costa, número desconhecido (pra ele, pelo menos, naquele momento específico de beatitude etílica).

Mas não é sua mãe que não dorme enquanto ele não chegar – infelizmente, mães são mais fáceis de lidar do que esposas. Alaor se esgueira pela casa de poucos e apertados cômodos, no que ele imagina (equivocadamente) seja uma caminhada silenciosa. Por um momento recorre novamente aos versos-universos de Adoniran Barbosa e lamenta o fato de hoje em dia haver ônibus circulando a noite toda, e não somente o trem das onze, o que inegavelmente lhe daria uma boa desculpa para chegar “só amanhã de manhã”, quando a cachaça já tivesse arrefecido um pouco seu teor de desnorteamento e ausência de gravidade (gravidade nos dois sentidos: força física e seriedade).

Alaor passa pelo corredor sabendo que a esposa, acordada, finge estar dormindo. Entra no banheiro e se depara com seu rosto magro no espelho. Alguns pelos já despontam na face, indicando que no dia seguinte terá de barbear-se de novo. Um banho seria importante para dissipar aquela aura de pinga, confusão e suor acumulados, mas ele resolve deixar para amanhã. Olha bem para seu rosto no espelho. Não obstante a vertigem proporcionada pelo Fogo Paulista ele consegue focar a imagem de si mesmo por alguns segundos e não pode negar que seja espantoso que esteja ganhando a vida nas últimas semanas como Papai Noel numa loja de departamentos.

Alaor é magro, moreno, com um rosto seco de filho de pau de arara – como o de um personagem de Graciliano Ramos -, e não tem a menor paciência com crianças. Tanto é que não teve filhos até hoje, e não por falta de insistência da esposa. Além disso ele bebe demais, fuma um cigarro atrás do outro, não suporta o frio de algumas madrugadas paulistanas em julho e não consegue entender – não mesmo – como um velho idiota e barbudo de algum país gelado possa fazer tanto sucesso por aqui. “Sou filho único, tenho a minha casa pra olhar”, ele canta, antes de apagar a luz do banheiro e tatear a esmo – como um homem de olhos vendados- a caminho do quarto.

Música…

Neste ano, em que se comemora o centenário do nascimento de Adoniran Barbosa, vale a pena escutar os discos do mestre do samba paulistano.

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